3a Bienal de Gravura de Santo André

3a Bienal de Gravura de Santo André

A Gravura em Belém

Qualquer texto, por mais breve que seja, referindo-se à gravura em Belém ficaria incompleto se deixasse de mencionar a importância e o efeito da obra gráfica de Valdir Sarubbi. Ausente neste segmento da III Bienal – que pretende mostrar a produção atual a partir das obras de gravadores paraenses em atividade – Valdir Sarubbi teve um papel fundamental na formação de diversos artistas que logo ganhariam reconhecimento e seriam devedores de seu estilo preciso e meticuloso. Ronaldo Moraes Rêgo gravita nessas influências, assimilando do mestre o extremo rigor, disciplina e acurado senso de observação. Consciente do meio que opera, Ronaldo tira pleno proveito dos processos de gravação da água tinta e da água-forte na elaboração de finas tramas e de complexos arranjos tonais na representação de seu tema predileto, os elementos da natureza (folhas, texturas, sementes, etc). João Carlos Torres, Jocatos, participou desse grupo em torno dos ensinamentos de Sarubbi, porém, sua gravura se desenvolve em uma linha menos ortodoxa. Sua instalação para esta Bienal evidencia um jogo de apropriações e de sutis intervenções gráficas em caixas de supermercados, que se movimentam livremente pelo espaço. Encontramos, também, em Alexandre Sequeira as estratégias de apropriação e de fuga do plano da parede, ao optar pela suspensão das peças no ambiente. Alexandre vem realizando uma série de retratos fotográficos em uma pequena comunidade ribeirinha no interior do Pará, dando início a um trabalho de recuperação da memória visual do lugar a partir dos seus moradores. O resultado são retratos em tamanho real, estampados em serigrafia nos próprios objetos de uso das pessoas: lençóis, redes, mosquiteiros. Nessas obras a imagem e o suporte interpenetram-se e irradiam, na sua totalidade, a carga simbólica do trabalho.

Fato de grande importância para o desenvolvimento da gravura em Belém foi a instalação, na Fundação Curro Velho, em 2001, do primeiro atelier público de gravura da cidade – projeto coordenado pelo curador deste segmento e com total apoio da Profª Dina Oliveira, atual gestora da instituição. Sua implantação tem possibilitado difundir a gravura tanto entre os alunos da rede pública do ensino médio, quanto entre os estudantes universitários, que acorrem à instituição para suprir as deficiências da infra-estrutura acadêmica. O Atelier da Fundação, além das oficinas regulares, disponibiliza seus horários vagos para artistas que queiram desenvolver seus projetos em gravura, o que vem fomentando uma produção nascente e vigorosa na cidade. Junior Tutyia, Jean Ribeiro e Pablo Mufarrej iniciaram seus estudos de gravura na Fundação e, hoje, participam ativamente, como educadores, dos cursos de xilogravura e de gravura em metal que são oferecidos à comunidade. Nota-se em suas obras uma intensa investigação sobre a matriz gráfica: nas xilogravuras de Junior Tutyia, com seus espaços planos que se articulam em cortes de extrema precisão e objetividade; na densidade e espessura dos metais de Jean Ribeiro; nas experimentações técnicas e materiais que desencadeiam o processo de trabalho de Pablo Mufarrej. Três artistas que encontraram na gravura um meio para expressar suas vivências e que, certamente, pela qualidade e seriedade de suas pesquisas, darão continuidade a um trabalho que vem frutificando desde o velho Sarubbi.

Armando Sobral

Belém 2005

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